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Larva da vespa 'Hymenoepimecis veranii'
no abdome de uma aranha (foto: Jober F. Sobczak).
O comportamento de duas novas espécies
de vespas parasitas foi registrado por pesquisadores brasileiros. Os
cientistas descreveram a relação que esses animais mantêm com
suas hospedeiras, as aranhas, em artigo publicado recentemente no Journal
of Natural History. Segundo eles, o mecanismo de dominação
usado pelas vespas sugere uma ‘parceria’ aperfeiçoada ao longo
de um período evolutivo extenso.
As vespas observadas pertencem às
espécies Hymenoepimecis japi e Hymenoepimecis
sooretama. Elas foram vistas parasitando, respectivamente, as
aranhas das espécies Leucage roseosignata e Manogea
porracea. Outras relações de parasitismo entre vespas e
aranhas já foram verificadas anteriormente. O estudo foi feito na
Reserva Florestal da Companhia Vale, em Sooretama (Espírito Santo),
e na Reserva Ecológica da Serra do Japi, em Jundiaí (São Paulo).
Segundo um dos autores do artigo, o
biólogo Jober Fernando Sobczak, da Universidade Federal de São
Carlos e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia dos
Hymenoptera Parasitoides da Região Sudeste Brasileira, as vespas
analisadas atacam apenas um tipo de aranha. “Acredito que seja um
processo bastante específico”, defende em entrevista à CH
On-line.
O biólogo conta que as vespas recém-descritas
usam uma substância ainda desconhecida, provavelmente um anestésico,
para imobilizar a aranha e, assim, depositar seu ovo na parte
externa do abdome do aracnídeo, onde o inseto se desenvolverá. Com
o passar dos dias, o ovo se transforma em larva e, depois de um período
de amadurecimento, que deve durar em torno de três semanas, a larva
libera outra substância, também não identificada, que altera o
comportamento da aranha. “É como se fosse uma neurotoxina”,
compara o pesquisador.
A serviço das vespas
A partir de então, a aranha
torna-se uma espécie de escrava da vespa e trabalha para o
bem-estar dela. A teia é construída de forma diferente: em vez de
uma espiral plana com múltiplos fios em sentidos diferentes, a
estrutura passa a ser uma espécie de envoltório, com fios
concentrados e poucos eixos definidos.
A ideia é que o novo desenho da
teia proteja e sustente melhor o casulo da vespa. “Na teoria, ela
é mais resistente que a original, pois reúne vários fios em um só”,
explica Sobczak. “A teia modificada resiste bem ao peso do casulo
e à chuva”, diz. Terminada a construção, a aranha, que já
parara de se alimentar dois dias antes, morre e serve de alimento
para a larva, que então constrói seu casulo. Depois, a vespa
adulta eclode e abandona o casulo.
Uma interação
semelhante entre a vespa Hymenoepimecis veranii e a aranha Araneus
omnicolor já havia sido descrita pelos pesquisadores em artigo
publicado em 2007 na revista Naturwissenschaften.
Nessa relação, a teia construída pelas aranhas parasitadas também
se torna muito diferente da produzida pelas não parasitadas.
Parasitismo refinado
As etapas da relação entre o
hospedeiro e a vespa parasita são bastante precisas. A quantidade
das substâncias químicas injetadas na aranha para imobilizá-la e
alterar seu padrão de construção da teia parece ser
cuidadosamente medida. “Por isso, acredito que esses animais
passaram por um processo de coevolução bastante requintado”,
justifica Sobczak.
O parasitismo pode ocorrer tanto em
aranhas fêmeas quanto em machos. Mas, como os machos têm pouca
biomassa – o que significa menos alimento para a larva – e seu
ciclo de vida é mais curto, eles não são atacados com tanta frequência.
As vespas estudadas preferem as fêmeas de tamanho intermediário,
mais facilmente dominadas do que as grandes.
Sobczak acrescenta que ainda é
necessário mais pesquisa sobre os padrões de parasitismo em outras
espécies de vespa do gênero Hymenoepimecis. Os
pesquisadores querem comparar as características das teias de
outros hospedeiros e saber se a mudança no desenho delas é um padrão
difundido dentro do grupo. “Pretendemos também investigar quais são
as substâncias presentes no veneno usado pela vespa para imobilizar
a aranha e as substâncias injetadas pela larva para modificar o
comportamento de construção da teia”, completa.
Fonte: Ciência Hoje Online - 01/02/2010
Texto: Raquel Oliveira
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