Estudo aponta que formigas transmitem doenças


As formigas, que infestam a maioria das residências nesse período quente, desafiam não só as donas de casa, mas são um problema de controle sanitário nos hospitais. Uma pesquisa inédita no Brasil, desenvolvida por professores da UFJF, já relacionou nove espécies de formigas, que atuam como vetores de infecções provocadas por fungos no ambiente hospitalar. Os estudos mostram que o número destas infecções cresce significativamente e, por isso, a análise do comportamento desses insetos ganha um status de utilidade pública.

Comuns em locais quentes, úmidos e que ofereçam algum tipo de alimento, as formigas podem ser encontradas na copa, cozinha, nos quartos e nos depósitos de lixo dos hospitais. E não são raras também em lugares, como os centros cirúrgicos, as UTIs e os berçários.

O estudo desse tipo de contaminação começou com o desenvolvimento de um projeto de Iniciação Científica, coordenado pela professora de microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), Rosângela Abreu Monteiro de Barros, e pelo professor de zoologia, Fábio Prezotto. O projeto recebeu uma menção honrosa da Pró-reitoria de Pesquisa, na I Mostra de Graduação e Pós Graduação, realizada pela UFJF em novembro do ano passado, e se tornou o tema da dissertação de mestrado de Rosângela.

Para se familiarizar com as formigas e ter conhecimento suficiente para identificá-las, a professora teve aulas com uma das maiores especialistas no Brasil, pesquisadora do Instituto Biológico em São Paulo, Ana Eugênia Campos Farinha.

Em seguida, começou o trabalho de campo, com a distribuição de iscas, uma mistura de mel, bolo de abacaxi e fígado de boi desidratado, em mais de 300 pontos pré-determinados de um hospital. As formigas são atraídas pelo odor do alimento, saem do ninho e se comunicam entre si por meio de feromônios, substâncias voláteis, ativas em quantidades mínimas que, ao serem liberadas por um inseto, têm a propriedade de afetar outros. Os feromônios são usados como mensageiros químicos em diversas situações da vida dos insetos: alimentação, acasalamento, agregação, defesa e estabelecimento ou reconhecimento de trilhas.

A pesquisa comprova que é nesse trajeto, do ninho até o local do alimento, que a formiga se contamina com um determinado tipo de fungo e o distribui, não só por onde passa, mas também dentro do ninho, onde mais insetos serão contaminados.

Para verificar se um determinado grupo de formigas se contaminou no trecho onde encontrou alimento, ou está trazendo um fungo de outra área, a pesquisadora faz algumas análises. Primeiro pega uma das formigas da trilha e a coloca num meio de cultura no qual, posteriormente, será possível identificar quais fungos ela transportava. Em seguida, Rosângela analisa os fungos no ambiente no qual foi colocada a isca. Desta forma, a professora explica que se os fungos encontrados na formiga e no ambiente forem os mesmos, ela provavelmente terá se contaminado naquele local. No entanto, se forem diferentes pode-se concluir que a formiga está transportando os agentes contaminadores de outro lugar.

Além do estudo dos fungos, a professora mede a distância percorrida pela formiga, do ninho até o alimento. Avalia seus hábitos, como a hora em que busca alimento, o local e o tamanho do ninho, a quantidade de formigas e se elas têm as mesmas formas de ação durante todo ano. “Estudar o comportamento das formigas é uma forma de controle da infecção. Isso, porque você passa a prever a ação destes insetos o que torna muito mais fácil e eficiente o processo de controle de disseminação de microorganismos e, conseqüentemente, o número de casos de infecções”, ressalta a professora.

Rosângela destaca, também, que a presença de formigas não é sinônimo de lugar sujo. “Nós já encontramos, inclusive, formigas que são atraídas por ambientes esterelizados”. Mesmo assim, uma dica que a professora dá para combater as formigas domésticas, que não são, necessariamente, diferentes daquelas encontradas nos hospitais, é manter a casa sempre limpa e vedar frestas.

Segundo a coordenadora da pesquisa, a iniciativa pode se tornar um projeto de extensão. “Com isso, além de envolver alunos, que precisam de experiência prática, poderemos dar um retorno à sociedade na forma de auxílio aos hospitais no combate às formigas”.

Fonte: UFJF