Carrapatos: Biologia e Comportamento


 "Carrapatos Duros"  "Carrapatos Moles"

BIOLOGIA E COMPORTAMENTO DOS "CARRAPATOS DUROS"

Família Ixodidae

A maioria das espécies deste grupo de carrapatos é silvestre e habita florestas e pastagens, parasitando várias espécies de animais hospedeiros. Poucas espécies são encontradas em ambientes restritos, como ninhos e tocas de seus hospedeiros.

O desenvolvimento se completa em duas fases: uma parasitária que ocorre sobre o hospedeiro e outra de vida livre, no solo, após abandonar seu hospedeiro.
A fase parasitária compreende menos de 10% da vida do carrapato e é adaptada para alimentação sangüínea no hospedeiro. São necessários um ou mais hospedeiros para completar seu ciclo de vida que consiste em três fases: larva, ninfa e adulto (estágios móveis e hematófagos).
Após o acasalamento, as fêmeas ingurgitam, desprendem-se do hospedeiro, e procuram locais abrigados no solo dando início à fase de vida livre do ciclo biológico. O tempo de duração deste período, dentro de cada espécie, depende da temperatura, podendo se alongar quando essas tornam-se baixas. A quantidade de ovos postos por fêmea, dentro de cada grupo de carrapato, está relacionada com o seu respectivo peso.

As larvas ao saírem do ovo já possuem um aspecto semelhante ao do carrapato adulto. Apresentam três pares de pernas e são sexualmente imaturas. As larvas permanecem inativas na vegetação do solo por vários dias enquanto sua cutícula endurece e então quando estão aptas a infestar os animais, iniciam o processo de subida e descida em direção ao ápice das plantas ao redor do local onde nasceram. As larvas podem detectar odor, calor, CO2 e vibração do ar devido ao movimento dos animais hospedeiros. Na vegetação, ficam agrupadas evitando, desse modo, a perda de umidade e protegendo-se da incidência direta dos raios solares, aguardando a passagem dos hospedeiros, geralmente pequenos mamíferos e aves que habitam no solo. Após uma muda, dão origem as ninfas as quais apresentam quatro pares de pernas. Estas também são imaturas sexualmente. Após a última muda, originam-se os adultos, machos ou fêmeas. As fêmeas só se engurgitam completamente após o acasalamento. Os machos permanecem no hospedeiro por várias semanas ou meses, algumas vezes acasalando-se com várias fêmeas. Exceto para Ixodes, a cópula dos ixodídeos ocorre sempre no hospedeiro.

O encontro dos ixodideos com os hospedeiros no campo é feita ao acaso. Ao contrário dos insetos, os carrapatos dispersam-se muito pouco percorrendo distâncias muito curtas. Apesar de poderem detectar a proximidade do hospedeiro na vegetação, é necessário que haja contato físico com o mesmo para que eles sejam transferidos e iniciem a fase parasitária. Muitos morrem antes mesmo de encontrar seus hospedeiros, estando sujeitos a predação e a condições climáticas adversas. Para compensar a restrição imposta à fase de vida livre do seu ciclo biológico, as fêmeas depositam no ambiente milhares de ovos, dos quais, em geral, eclodem a grande maioria das larvas. As larvas, por sua vez, também são muito resistentes e são capazes de passar longos períodos em jejum, até encontrar condições favoráveis ao parasitismo.

O desenvolvimento destes carrapatos pode ocorrer em um, dois ou três hospedeiros dependendo do número de animais parasitados durante seu ciclo evolutivo.

No primeiro caso, larvas, ninfas e adultos passam toda a vida parasitária sobre um só animal; no segundo caso, larvas e ninfas alimentam-se em um animal, as ninfas caem no solo, sofrem uma muda e os adultos buscam um novo hospedeiro; no terceiro caso, a cada mudança de estádio, o carrapato abandona o hospedeiro, realiza a muda no ambiente, e volta a se fixar no hospedeiro.

À semelhança das larvas, nos carrapatos onde o ciclo se desenvolve em mais de um hospedeiro, as fases presentes no meio ambiente também são muito resistentes e capazes de suportar grandes períodos de inanição.

O tempo necessário para que o carrapato complete o seu ciclo biológico depende do tipo de ciclo e das condições climáticas, podendo variar de alguns meses, em países tropicais, até anos, em países de clima frio.

Ciclo de um hospedeiro (carrapatos monoxenos)

Representado pelo carrapato dos bovinos – Boophilus microplus e pelo carrapato tropical do cavalo, Anocentor nitens. Todos os estágios parasitam grandes animais tais como bovinos, veados e cavalos. O encontro do hospedeiro se dá ao acaso e todo o desenvolvimento da fase parasitária do carrapato ocorre no mesmo indivíduo.

As fêmeas, após serem fecundadas, ingurgitam e caem no solo ,onde depositam ovos. Os machos permanecem no corpo do hospedeiro, por um período maior de tempo, onde acasalam-se com outras fêmeas. Nos climas tropicais úmidos o ciclo se completa sem interrupção porém mostrando uma sazonalidade distinta dos estádios.

O Boophilus microplus, com seu ciclo biológico curto, completa duas a três gerações por ano em regiões onde a temperatura é mais amena (sul do país) e ao redor de cinco em locais mais quentes (sudeste).

Ciclo de dois hospedeiros

Este ciclo ocorre em algumas espécies de Hyalomma e Rhipicephalus encontradas em estepes ou savanas onde ocorre uma longa estação seca e pouca chuva. A larva alimentada não cai no solo, ficando presa no hospedeiro.

Após a muda, as ninfas escapam da exuvia larval e movem-se a uma curta distância antes de fixar-se ao mesmo animal. As ninfas engurgitadas caem no solo, realizam a muda para o estágio adulto, e procura um segundo hospedeiro, geralmente maior, para alimentar-se. As fêmeas alimentadas caem no solo e ovipositam antes de morrer.

Ciclo de três hospedeiros (carrapatos trioxenos)

É o tipo que o corre com mais freqüência entre os ixodideos. Cerca de 600 a 650 espécies deste grupo apresentam este tipo de ciclo biológico. Para completar o seu desenvolvimento, são necessários três diferentes hospedeiros, da mesma espécie ou não, ou o mesmo indivíduo três vezes, se ele permanece nas proximidades da larva, ninfa ou adulto. Os ciclos biológicos são longos podendo variar de 1 a 3 anos.

voltar ao topo

BIOLOGIA E COMPORTAMENTO DOS "CARRAPATOS MOLES"

Família Argasidae

Este gênero é mais abundante nas regiões áridas que apresentam longas estações secas. A maioria das espécies está associada às aves. Em geral, os habitats dos argasídeos estão intimamente associados àqueles relacionados ao homem e animais domésticos: pocilgas, galinheiros, pombais, ou cabanas rústicas, Os argasídeos que vivem em um habitat relativamente estável, podem alimentar-se no mesmo animal várias vezes ou em vários animais (da mesma espécie ou não) durante seu ciclo de vida e se reproduzem continuamente ao longo do ano.

Os adultos acasalam-se fora do hospedeiro e a fêmea realiza postura após cada repasto sanguíneo.

O ciclo de vida compreende ovo, larva, ninfas (vários estágios) e adultos. A maioria das espécies, ninfas e adultos alimenta-se muito rapidamente (cerca de 30 a 40 minutos), enquanto as larvas fixam-se em seus hospedeiros por aproximadamente 7 a 10 dias. Antes de cada muda ocorre um repasto sangüíneo, salvo raras exceções em que pode ocorrer duas refeições em ninfas antes da ecdise.

voltar ao topo

_______
Texto publicado com autorização da Dra. Leila Barci, Pesquisadora do Laboratório de Parasitologia Animal do Instituto Biológico de São Paulo.