Cupins
Arborícola e de Montículo: Biologia e Comportamento


Descrição Vida Social Ciclo de Vida Nova Colônia Comportamento

Descrição

Os cupins são insetos sociais pertencentes à Ordem Isoptera, palavra que deriva do grego "isos", que significa igual e "ptera", que significa asas, ou seja os cupins pertencem à classe de insetos de "asas semelhantes".

Assim, a classificação dos cupins começa pela seguinte tabela:

Reino: Animal
Filo: Artropoda
Classe: Insecta
Ordem: Isoptera

Estes insetos tem distribuição mundial, ocorrendo em áreas tropicais e temperadas na terra. Cerca de 2.200 espécies de cupins já foram descritas, sendo que no continente americano encontramos aproximadamente 540 espécies distribuídas em 84 gêneros e 5 famílias. Nos Estados Unidos foram relatadas cerca de 40 espécies e, no Brasil, cerca de 200 espécies, a maioria benéfica. O quadro abaixo representa esta distribuição.

Família

Gêneros

Espécies

Kalotermitidae

15

112

Rhinotermitidae

8

34

Serritermitidae

1

1

Termitidae

58

363

Termopsidae

2

4

Além destes cupins, podemos citar o Reticulitermes lucifugus (Rossi, 1792), o Heterotermes spp, Nasutitermes spp, etc. que também invadem estruturas e serão tratados em capítulos a parte.

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Vida Social

Cupins são insetos sociais, ou seja, como as abelhas, formigas e vespas, formam uma colônia. Esta colônia de indivíduos é caracterizada pela especialização de funções, existindo indivíduos responsáveis por tarefas específicas tais como: buscar alimento, reprodução, botar ovos, defender o ninho, dentre outras. A especialização faz os indivíduos de uma colônia possuírem diferentes formas (morfologia diferenciada, polimorfismo), devidamente adaptadas à função que irão desempenhar. Desta maneira, um indivíduo especializado desempenha apenas um tipo de tarefa, fazendo com que exista uma completa interdependência entre os indivíduos de diferentes funções para a sobrevivência da colônia.

Existem basicamente três tipos de funções ou castas de indivíduos em uma colônia:

  • Operários
  • Soldados
  • Reprodutores alados


Na parte superior o alado, pronto para a revoada. É também chamado de siriri ou aleluia. É o cupim adulto, que tem o aparelho reprodutor já desenvolvido. Na parte inferior, à esquerda, um cupim operário e à direita um soldado. O soldado é caracterizado pela cabeça avantajada para sustentar uma mandíbula  grande o suficiente para a função de defesa.

A casta dos operários é caracterizada por indivíduos responsáveis por todas as funções rotineiras da colônia, tais como obtenção de alimento, alimentação de indivíduos de outras castas, inclusive o rei e a rainha, construção e conservação do ninho (reparação por danos e limpeza), eliminação de indivíduos adoecidos ou mortos, cuidados com os ovos. Morfologicamente falando, os operários apresentam uma cor branco leitosa com a cabeça relativamente mais escura, não apresentando nenhum olho (tanto olhos compostos quanto olhos simples ou ocelos). Algumas espécies podem apresentar uma área pigmentada onde os olhos seriam tipicamente encontrados; no entanto todos os operários são cegos. As asas são ausentes pois não necessitam das mesmas para o desempenho das funções a eles atribuídas.

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  Operários de cupins são encontrados em grande número na colônia. Eles são responsáveis por manter o ninho, alimentando as demais castas.

A casta dos soldados, por sua vez, tem a função de guarda do ninho e proteção dos operários durante a busca de alimentos. Morfologicamente apresentam corpo de cor branco leitosa, e são caracterizados pelas cabeças escuras desenvolvidas com um par de mandíbulas também desenvolvidas (a única exceção são os soldados da espécie Nasutitermes spp, que apresentam mandíbulas na forma de um prolongamento espinhoso da cabeça). Semelhantemente aos operários, os soldados também não apresentam asas ou olhos (áreas pigmentadas na cabeça podem estar presentes na região onde os olhos estariam localizados). Como estruturas de defesa, além da potente mandíbula que pode esmagar, cortar ou golpear com enorme força e da cabeça dura e volumosa que pode obstruir passagens estreitas do ninho contra a penetração de inimigos naturais, os soldados de algumas espécies podem apresentar secreções de natureza tóxica ou viscosa e muito grudenta, através de uma estrutura na cabeça denominada fontanela (um tipo de poro que se interliga com a glândula frontal, responsável pela produção das secreções). É interessante mencionar que o formato da cabeça e das mandíbulas pode ajudar na identificação da espécie infestante.

A casta dos reprodutores alados é representativa dos indivíduos responsáveis pela reprodução. Assim, esta casta é formada por indivíduos sexualmente definidos (machos e fêmeas), com o aparelho reprodutor desenvolvido. São os famosos siriris, siri-siris ou aleluias, que saem do ninho em um vôo de dispersão com o objetivo único de encontrar um local onde possam se reproduzir, formando outro ninho de cupins. Este fênomeno de dispersão é conhecido como revoada ou enxamagem e ocorre principalmente em épocas quentes e úmidas, normalmente no período da tarde, próximo ao anoitecer. Morfologicamente falando, para desempenharem a função de dispersão, apresentam dois pares de asas membranosas, úteis apenas durante o fênomeno de dispersão, caracterizadas por terem dimensões semelhantes (o que os classifica na Ordem Isoptera, como mencionamos anteriormente). Quando não estão em uso, as asas repousam sobre o abdome do inseto. A cor das asas pode variar de claras e transparentes a escuras, sendo que é através das nervuras presentes nas asas que se identificam muitas espécies de cupins. A coloração do corpo dos alados varia de um marrom claro ao preto, dependendo da espécie. Apresentam olhos compostos e algumas espécies também apresentam olhos simples ou ocelos. Da mesma forma que os soldados, apresentam fontanela na cabeça.

Após a revoada, quando pousam no solo para procurar um abrigo e formar novo ninho, os reprodutores alados forçam as asas contra a superfície e a quebram, pois já desempenharam o seu papel no vôo de dispersão. A parte basal da asa, que permanece junto ao corpo após a quebra das asas, é denominada escama alar. Se o casal não tiver se encontrado durante o vôo de dispersão, a fêmea, já no solo, libera um feromonio sexual que irá atrair o macho. Após ambos se encontrarem, partem para procurar um local seguro para o acasalamento. Após a identificação do abrigo (madeira seca ou solo, dependendo da espécie ser um cupim de madeira seca ou cupim subterrâneo) macho e fêmea se acasalam e iniciam a nova colônia dando início à postura de ovos. A partir daí são chamados de rei e rainha, ou casal real, da nova colônia.

Quando inicia a postura, o abdome da rainha sofre uma hipertrofia, pois todos os ovos em desenvolvimento ficam em seu interior, aumentando de tamanho a medida que a fêmea aumenta sua capacidade de oviposição com o passar dos meses. O abdome da fêmea pode, assim, alcançar vários centímetros de comprimento, apresentando uma coloração branco leitosa. O macho permanece junto à fêmea, que necessita ser fecundada periodicamente e, por sua vez, apresenta uma leve hipertrofia em seu abdome. Dependendo da espécie de cupim, o casal real pode transitar livremente no ninho ou permanece confinado em uma câmara real, de onde jamais sairá.

O ninho pode ser formado ainda por outros indivíduos ou elementos, tais como ovos e indivíduos imaturos, brancos, moles e dependentes dos operários que cuidam de sua limpeza e alimentação. Também podem apresentar reprodutores secundários ou reprodutores de substituição, indivíduos com a função de substituir o casal real no caso de algum deles adoecer ou morrer, ou até mesmo ter a função de complementar a postura de ovos na colônia. Reprodutores secundários são produzidos em colônias mais maduras e, como não têm a necessidade de sair da colônia, eles nunca desenvolveram asas podendo apresentar, no entanto, gemas alares quando são originados de ninfas. Sua coloração pode variar de leve a fortemente pigmentada.

Outras espécies de artrópodes também podem conviver com os cupins, tais como alguns pequenos besouros, miriápodes e moscas e são denominados simbiontes.

Para manter todos os indivíduos desta sociedade, o ninho desempenha um papel importante, oferecendo condições microclimáticas (temperatura, umidade, intempéries climáticas) adequadas e seguras a todos os indivíduos desta comunidade, protegendo-a contra inimigos naturais (predadores e parasitas). Ao conjunto formado pela comunidade (indivíduos) e pelo ninho (parte física), denominamos colônia. Assim, uma colônia pode ser formada de vários ninhos (ou sub-ninhos) no caso de compartilhar os mesmos indivíduos.

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Ciclo de Vida

Os cupins são insetos que apresentam metamorfose incompleta. Embora cada espécie possua características de desenvolvimento diferentes, basicamente podemos resumir o ciclo de vida destes insetos em: ovos, formas jovens (ou ninfas) e adultos. A rainha coloca ovos que se transformam nas formas jovens. As formas jovens, por sua vez, podem se diferenciar em operários, soldados e reprodutores alados que, como vimos, após se abrigarem em outro local, formam o casal real da nova colônia.

Entre a forma jovem e a forma adulta, os cupins sofrem mudas para que possam se desenvolver, a este processo chamamos de ecdise ou muda.

Os operários podem ser divididos em dois tipos: operários verdadeiros, que são estéreis e operários funcionais, que são machos e fêmeas. Operários funcionais tem a habilidade de mudar de volta a ninfa, que pode então se transformar em soldados, reprodutores alados ou reprodutores de substituição, dependendo das necessidades da colônia. O último estágio ninfal pode desempenhar funções do operário no busca de alimentos e ajudam a cuidar de outras ninfas nos estágios iniciais.

Os cupins de madeira seca não tem operários verdadeiros. Sua função é desempenhada pelas ninfas que podem se desenvolver em soldados ou reprodutores. Os cupins subterrâneos apresentam, em geral, as três fases do ciclo de vida descrito acima.

Em relação à longevidade dos cupins, o rei e a rainha podem viver até 30 anos. Durante todo o período de vida, a rainha irá colocar ovos e, para isso, necessita de acasalamento frequente do rei. A colônia como um todo, no entanto, pode viver para sempre uma vez que se o rei ou a rainha morrerem ou adoecerem, são prontamente substituídas pelos reprodutores de substituição que se encarregarão das funções de fecundação, do rei, ou de oviposição, da rainha.

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Formação de uma nova colônia

Novas colônias podem ser formadas a partir dos reprodutores alados (siriris ou aleluias) ou pelo isolamento de indivíduos de uma colônia grande. Na colônia formada através dos alados, é interessante notar que a maior parte das formas aladas irá morrer por serem atacadas por inimigos naturais (formigas), consumidas por predadores (pássaros, morcegos, etc), por sofrerem com mudanças climáticas ou simplesmente por não encontrarem o par ou um local seguro para fazer o ninho. Além disso, o desenvolvimento inicial da colônia é lento. A rainha coloca poucos ovos inicialmente e, ao final do primeiro ano, uma colônia de cupins subterrâneos, por exemplo, pode conter cerca de 75 indivíduos apenas, apresentando-se assim, extremamente frágil.

A formação de uma nova colônia, através do isolamento, acontece quando uma colônia identifica uma nova fonte de alimento e uma sub-colônia é formada para explorar esta nova fonte alimentar. Se o caminho entre a colônia principal e a colônia secundária for quebrado, a população isolada pode então dar origem às formas reprodutoras, geradas através dos operários funcionais e ninfas, como discutimos anteriormente.

Desta maneira, outra principal fonte de formação de novas colônias, é através do acúmulo de madeira infestada em determinados locais (que contribuem para a formação de uma sub-colônia) e pelo uso de madeiras já infestadas por cupins.

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Conhecendo o Comportamento dos Cupins

Cupins Arborícolas

Os cupins genericamente chamados de arborícolas mais comumente encontrados no Brasil são da espécie Nasutitermes e tem distribuição mundial, sendo um dos mais ricos em espécies. Normalmente ocorrem em áreas próximas a matas, cerrados e caatingas e dependendo da espécie constroem também ninhos epígeos (no nível do solo).

Dentro de estruturas, estes cupins atingem vigas internas dos telhados e sótãos. Seus caminhos podem ser vistos pelas paredes e são semelhantes àqueles feitos pelos cupins subterrâneos. 

O controle destes cupins compreende a identificação do local onde os ninhos se encontram e a sua retirada. Muitas vezes os ninhos não estão na residência, podendo se encontrar em alguma árvore na região adjacente à estrutura. Uma barreira química, à semelhança do tratamento dos cupins subterrâneos também pode ser feita, principalmente nos casos em que o comportamento destes cupins é semelhante ao do cupim subterrâneo.




Ninho de Nasutitermes em árvore na cidade de São Paulo
Foto: Eng. Agr. Marcos Roberto Potenza


Ninho de Nasutitermes em árvore

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Cupins de Montículo

Os montículos de terra, extremamente duros e de tamanhos variados que encontramos em pastagens são na verdade ninhos de cupins. O gênero Cornitermes abrange diversas espécies adaptadas a ambientes diversos como as florestas tropicais úmidas, o cerrado e as savanas. Estas espécies estão distribuídas da Costa Rica até as regiões centrais, e no sul do Brasil, Argentina e Paraguai. 

Em áreas de pastagens encontramos diversos ninhos com até um metro de altura. A presença destes ninhos prejudicam as operações de mecanização agrícola e conferem um aspecto de abandono, desvalorizando a terra. Não oferecem perigo às estruturas de madeira das casas no campo, uma vez que se alimentam de toletes de cana-de-açúcar, milho, sementes e folhas secas de gramíneas, mudas de eucalipto, culturas de café e amendoim. As infestações de cupins que ocorrem em residências de campo se devem a presença de outros gêneros de cupins, ocasionalmente podemos encontrar um montículo próximo a residência que possa pertencer a uma espécie xilófaga. Antes de realizar o controle deve-se coletar amostras dos cupins do montículo e daqueles encontrados na residência, estes devem ser encaminhadas a um especialista para a correta identificação.


Exemplo de cupinzeiro de cupim de montículo, tipico de algumas regiões rurais brasileiras.

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Texto publicado com autorização do Eng.Agr. Marcos Potenza, Pesquisador do Instituto Biológico de São Paulo.